04/03/2011

Push, Twist & Turn Tour, Berlin Bar, Bairro Alto

Boas bandas, quinta-feira, Bairro Alto e um horário convidativo só podiam fazer correr bem uma noite que tinha tudo para tal. Foi o bar “Berlin” a sala Lisboeta que recebeu a passagem da “Push, Twist & Turn Tour”, a tour de promoção do novo álbum dos Devil In Me, “The End”.

Se há salas ideais para um concerto de hardcore, o bar “Berlin” tem de ser considerado uma delas. Tamanho perfeito, bom palco e óptima qualidade de som. E, de facto, foi um praticamente cheio “Berlin” que recebeu os Devil In Me, os No Good Reason e os Shape.

Numa pontualidade quase britânica - ou deveremos dizer germânica? - os Shape iniciaram a sua actuação poucos minutos passavam as dez da noite. Reflexo das somente três bandas no cartaz (que, diga-se, situa-se no ponto ideal de tolerância máxima a uma noite de hardcore) ou da qualidade das mesmas, o “Berlin” esteve bem composto desde a primeira banda. E, a isso, não é alheia a própria qualidade do concerto dos Shape que, assiste-me e apraz-me afirmar, terá sido o melhor da banda até hoje – ou ontem. Um set constituido pelas habituais “Vampires”, “Doppelganger” – esta com a colaboração da vocalista dos extintos Reaching Hand – ou “Life’s Hard”. Desta vez não havendo Verse, coube a “1992” a eterna música sobre amizade dos X-Acto a fazer o lugar de cover no set dos Shape. E, mediante o ambiente que se vivia no “Berlin” na noite de 3 de Março, a escolha não poderia ter sido mais acertada. Um momento cantado em uníssono por toda a sala – mesmo quem estava lá atrás, estava a cantar – ao qual não faltaram explosões carnavalescas, colorindo assim, ainda mais, a festa que se fazia. Adesão do público desde a primeira música, público que já vai mostrando conhecer algumas das palavras que compõem as líricas da banda. As previsões não tinham como falhar: uma sala pequena e tempo de habituação à banda e, a mesma está, paulatinamente, a crescer.

Os No Good Reason, de Almada, vestiram o seu set de fantasia carnavalesca e de festa e trouxeram uma miscelânea do aclamado EP “Far Away” e covers que não tinham como deixar alguém indiferente. Desde a intro com Have Heart – e a ex-vocalista dos Reaching Hand na voz novamente – passando por um medley com Black Flag e Ramones e acabando em “When 20 Summers Pass” de Shelter, os No Good Reason souberam como vestir o fato de festa. Aliás, qualquer concerto de No Good Reason é, pela música da própria banda, uma espécie de festa. Não necessariamente por a banda ter uma qualquer atitude galhofeira, mas pelo feeling e pela sensação feel good que as músicas transmitem. No Good Reason é boa onda e, depois de um concerto da banda, é impossível não ter um sorriso na cara. É, igualmente, sintomático desta ideia, o facto de nem sequer haver o tradicional fosso entre público e banda. Todos estavam ali para se divertir e trataram de se colocar bem perto da banda para o garantir.

Mas a noite era dos Devil in Me e, em teoria, grande parte da afluência ao Bairro Alto na noite de ontem passava por eles e pelo seu concerto. E os concertos dos Devil in Me são muito, daquilo que se quer de um concerto, seja de hardcore, seja de qualquer outro estilo musical. Uma presença inesgotável em palco, fruto de um andamento duas mudanças acima da grande maioria das bandas – e não falo somente das portuguesas – uma qualidade musical pouco questionável, bons discursos entre músicas – fazendo valer a máxima de que o hardcore é mais que música – e uma simbiose quase perfeita entre banda e público. Um set que soube demonstrar os pontos fortes do novo álbum, abrindo com “The End” (que intitula o novo álbum), passando ainda por “On My Own”, “Push, Twist & Turn” (que intitula a tour de promoção do novo disco) e ainda “City of the Broken Dreams”. Igualmente, um set que soube ir buscar os pontos fortes do restante repertório da banda, “Alive” (ainda, até, dos tempos de Lockdown) e “FTW” do primeiro álbum da banda, “Born to Lose” e, “Back Against The Wall”, “From Dusk ‘till Dawn”, “Live Fast Die Young”, “Only God” e “Brothers in Arms” - a terminar - do álbum “Brothers in Arms”. Mas o espectro de X-Acto pairava pela sala lisboeta – talvez pela presença de um dos ex-guitarristas, Paulo Segadães – e, após algumas insistências, foi a vez de, também os Devil In Me, fazerem a sua versão de “Anchor” que, aliás, já se podia ouvir no EP “Live Fast Die Young”. Escusado será definir novamente o ambiente vivido nesse momento. Deve ficar o registo da grandiosidade que as músicas novas ganham ao vivo. Se, em álbum, já demonstravam ser das peças mais interessantes escritas pela banda, ao vivo, qualquer dúvida que existisse é dissipada. E nem o facto de serem músicas novas retirou feedback por parte do público.

A noite da passada quinta feira demonstrou que não são precisas bandas estrangeiras para encher uma sala, neste caso, em Lisboa. Demonstrou que não são necessários shows grandes para uma afluência em massa a um concerto de hardcore. Demonstrou, acima de tudo, a qualidade das bandas nacionais e do público nacional, que sabe reconhecer que, quando as bandas são boas, sejam portuguesas, sejam estrangeiras, estão lá para apoiar, cantar e dançar.

28/02/2011

NTB + FTG + CB + MS + BF @ Montijo

O Hardcore está vivo! Quem não concordar com esta afirmação é porque não sabe o que se passou este fim-de-semana em terras lusas. No Turning Back e For The Glory vieram provar aos mais cépticos que o movimento é como o Benfica... Um monstro a precisar de ser acordado!

Comecemos pelo dia de Domingo, pois infelizmente não pude estar presente no concerto do Porto nem no do Algarve, mas tive o prazer de ir passar uma bela tarde de Sol ao Montijo. Quando lá cheguei, deparei-me com um Time Out diferente. Um palco, montado na noite anterior! Por aqui começa o meu aplauso de pé ao espírito 100% DIY que o Fábio e o Flip têm e sempre tiveram. A primeira troca de palavras com eles ao chegar, senti um pouco de receio sobre a enchente ou ficarem, como se diz no português corrente, "apeados". Felizmente, correu tudo bem e a casa encheu, tendo-se vendido ainda uns quantos bilhetes à porta!

A verdade é que muitas das caras que lá estavam não são assíduos nos concertos, mas há sempre uma primeira vez, e se esta foi a primeira vez de muitos deles, ou uma das, acredito que voltem! Antes do concerto de For The Glory , o Flip disse umas quantas palavras que acho que quem está minimamente dentro do que se passa na cena nacional percebeu e foram, na minha opinião, palavras sábias. Thumbs up my friend.
Depois, subiu ao palco o Luis , da conhecida banda DAY OF THE DEAD (RIP!). Como já nos tinha habituado, também ele disse as palavras certas!
O Hardcore é um modo de vida que tem que ser vivido não apenas dentro das 4 paredes da venue, mas 24/7. Mas não vou divagar mais, senão ainda me chamam de prepotente.

Voltando ao concerto...

@ Backflip - A última vez que tinha visto Backflip foi em Frielas, à já algum tempo. Honestamente, não assisti a todo o concerto mas senti uma grande evolução da banda e um maior àvontade em palco. É bom ver que o espirito de Loures se mantém, com todos os amigos lá à frente a apoiar. Loures é isso! Keep it up!

@ Mala Sangre - Apesar de já conhecer o Perez e o Marco, só Sábado à noite é que soube quem era a banda. Não tinha ouvido nada, mas gostei do que ouvi, se bem que as vozes estavam demasiado baixas para o meu gosto. A cover de Terror foi o ponto alto do concerto destes espanhóis, visto não estarem a jogar em casa e ainda não serem muito conhecidos na cena nacional. Vão entrar em estúdio em breve, por isso ficamos à espera de novidades e uma nova visita.

@ Cold Blooded - Eu não sou a pessoa ideal para falar de Cold Blooded , pois é uma das bandas que mais gosto na cena Hardcore nacional. Bom concerto, com o povo já a mexer-se mais. Novamente problemas na voz, tendo havido 1 música que o Kizomba cantou sem se ouvir. Acho que só se apercebeu no fim.

Discurso de Flip e Luis . Thumbs up!

@ For The Glory - Hardcore puro e duro. O pessoal acanhou-se um pouco ao principio mas a partir do momento em que o Congas mencionou (presumo que foi logo depois da Fall In Disgrace, salvo erro) "Eles tiveram durante a madrugada inteira a construir este palco para alguma coisa... Toca a fazer stage dives". E pronto, começou a festa. Hardcore tuga style! Stage dives, circle pit, 2 step ... E pronto, agigantava-se o pequeno Hardcore numa venue em que a humidade escorria pelas paredes de tão cheia que a sala estava. A música "The Pack" que conta com a presença de vários vocalistas foi um dos momentos altos do concerto, sem esquecer claro da Survival of The Fittest ou a Won't Crawl on My Knees ! Com isto tudo, ninguém se apercebeu que o Benfica estava a perder (coisa que se resolveu em 5 minutos, diga-se!)

@ No Turning Back - O Martijin disse bem: "É díficil tocar depois de For The Glory". É verdade. Depois de um concerto como o que For The Glory deu (igual ao que nos têm habituado, sempre com a energia ao máximo) estava difícil a tarefa para os holandeses. Quando começaram ainda havia pessoal lá fora, que em menos de 2minutos voltou para dentro ... Mas a tarefa de tocar a seguir a FTG foi bem acatada pelos holandeses que prepararam um set para não desiludir: Web of Lies, Take Your Guilt, Stronger, I Rise, Do You Care, algumas músicas do novo albúm "Take Control" ... não houve como não agradar a todos os que se deslocaram ao outro lado do Rio Tejo (só se tocassem o Revenge is a Right todo :x )

Resta-me agradecer ao Fábio e ao Flip pelo acolhimento e pela dedicação que têm a este movimento! Ao Congas por facilitar a vida ao Young Channel para entrevistar NO TURNING BACK e FOR THE GLORY - Entrevistas essas que irão estar disponiveis brevemente em www.YOUNGCHANNEL.com.

A quem esteve presente.

Abraço também a NTB, Cold Blooded, Backflip e Mala Sangre!

HARDCORE LIVES!


Cheguei agora a casa, ainda estive a bulir, por isso se a review tiver aí uns erros, não me crucifiquem. *


19/02/2011

Death Before Dishonor + The Mongoloids + Shape - 17\02\2011, Cacilhas

Na noite de regresso dos americanos Death Before Dishonor houve pouco de tudo um pouco. Confuso? É ler para perceber.

Era uma noite, à partida, pouco conveniente para o hardcore. Os Sum41 tocavam ali praticamente ao lado – afinal, bastava atravessar o rio e dar um passeio à beira mar – o Benfica tinha acabado de jogar, o Sporting e o Porto jogavam à mesma hora, Paus iria tocar ali ao lado – para quem, novamente, quisesse fazer um passeio à beira mar – e nem duas semanas antes os Terror por ali, no mesmo espaço, tinham passado. Tudo factores que, conjugados, proporcionaram aos Death Before Dishonor um ambiente bastante diferente dos que haviam experimentado nas três passagens anteriores por Portugal. Mas já lá vamos. Curiosamente, a metereologia que vinha assolando a zona nos últimos dias, nem fora um empecilho. Talvez medo de um rio agitado.

Após algumas alterações ao cartaz inicial e desistências de última hora, coube aos Shape fazer a abertura da noite que consagrava a estreia dos Mongoloids em Portugal, bem como o regresso dos Death Before Dishonor ao nosso país.

Os Shape, para quem não sabe, é uma banda relativamente nova a tocar um hardcore na onda de Verse. Cada vez mais coesos em palco, com uma presença que acaba por aliar uma inquestionável qualidade musical a um agradável espectáculo visual, para quem gostar de ficar somente a assistir. E, como banda relativamente nova que é, pouca adesão humana sugere. Um concerto em tom de soundcheck ou ensaio. Irrepreensívelmente bem tocado, mas ao qual assistia uma desoladora plateia que nem com a execução de uma cover de Verse (Start a Fire) se excitou. Culpa do horário e do alinhamento, pensariam os mais optimistas. Não tanto.

Aos Mongoloids estavam, desde logo, subjacentes duas questões: a capacidade dos mesmos em dar sequer um concerto e, depois, a maneira como o fariam. A justificação é simples: esta é a banda que meses antes tinha... debandado. Rumores à parte, restou somente o vocalista. E, esta é, igualmente, a banda que, antes desta mesma tour europeia, lançou um comunicado cancelando uma série de concertos no seu país, devido a problemas internos que antevieram um fim anunciado desde os tempos da debandada. Mas, como banda profissional que mostraram ser, problemas houvessem, ninguém os adivinharia. Com um concerto iniciado com “True Colors”, os Mongoloids passaram em revista os seus melhores registos. “Alive and Well”, “Time Trials”, “Fading Away”, “Mongo Stomp” ou, ao fim, “Troubled Waters”, passando ainda pelo recente EP com a música que o intitula “New Begginings”, fizeram uma set list coesa e propícia a um bom espectáculo apenas arruinado pela ausência de público. Convenhamos, contudo, que os Mongoloids não são a banda mais conhecida em Portugal e, muito menos, a mais popular. Uma presença em palco intocável, cabendo especialmente ao vocalista e ao baixista da banda o epíteto de animais de palco. Bom... ou de chão, tendo em conta que foi lá que o vocalista actuou.

À quarta presença em Portugal os Death Before Dishonor terão presenciado a recepção mais fria que poderiam ter antecipado. Não por culpa de quem lá estava, mas mais por culpa de quem lá não estava. Quem lá não estava também, era um dos guitarristas da banda por estar a descansar do seu casamento com a vocalista dos Walls Of Jericho. Reza a lenda, que esse amor terá, inclusive, começado na noite em que os Death Before Dishonor tocaram com os Walls of Jericho na Caixa Económica Operária. Outra diferença para essa noite foi, como o próprio vocalista dos Death Before Dishonor confessou, a sua sobriedade. Sobriedade essa que não terá sido bem aceite pelos mecenas da plateia que, ao longo do set dos americanos, o abasteciam a sumo de cevada. Mas nem esse mesmo abastecimento terá feito a máquina Death Before Dishonor funcionar em pleno. Cansaço, ou não, a banda mostrou-se algo apática em palco, sem grande presença no mesmo. Verdade seja dia, a música da banda passa muito pela interação com o público. A quantidade de coros e back-vocals nas músicas, pede uma plateia participativa. E quando essa plateia é escassa, mesmo que participativa, o som da banda ressente-se. O set, aberto com “Born From Misery” de um dos anteriores álbuns da banda, foi relativamente focalizado no recente “Better Ways to Die” como seria de esperar. “Peace and Quiet”, “Remember” ou “Boys in Blue” marcaram presença no mesmo, tal como "Break Through it All", “Count Me In”, “Curl Up and Die”, “666 Friends, Family, Forever”, por exemplo, que levou a um muito pouco convincente anuncio de final de show. Se pudermos chamar-lhe assim, para o fim do encore estava guardada a invevitável “Boston Belongs To Me” – a conhecida cover dos Cock Sparrer – que promoveu a melhor adesão do público com, até, tentativas de stage dive.

Duas semanas depois dos gigantes Terror terem pisado o palco de Cacilhas – num ambiente bem diferente do da noite de 17 de Fevereiro – foi a vez de outra das grandes bandas do hardcore norte americano o fazer. O Revolver não terá presenciado muito mais de uma centena de pessoas que não terão conseguido gravar na memória das bandas americanas a sua passagem por Portugal este ano.

05/02/2011

Terror / First Blood / Lion Heart / Backtrack



Ora bem, enquanto tenho os acontecimentos ainda relativamente frescos na memória, deixo-vos com um gostinho do que se passou no Revólver em Cacilhas a noite passada. Quem foi, sabe bem do que estou a falar, quem não foi, não deve estar mesmo a ver o que perdeu.
Assim que eu e os meus saímos do Cacilheiro, já se reuniam algumas pessoas à porta, algumas jantavam na zona e aos poucos, chegava sempre cada vez mais gente.
Um bocado depois da hora marcada, começou toda a gente a entrar entupindo a entrada e assim que consegui atravessar a multidão, deparei-me com as bancas de merch no andar de cima - para haver mais espaço de modo a acomodar toda a gente no andar debaixo - e gente dentro do Revólver como nunca tinha visto. Nem no Revólver, nem no Man's Ruin, nem no Culto. As pessoas agregavam-se em volta do palco tomadas pela expectativa do que os concertos iriam trazer, algumas pessoas acomodavam-se mais atrás, outras enchiam o andar de cima, a escadaria e os cantos dos palcos. Diria que estava um ambiente perfeito para receber as bandas que ontem tocaram (e bem!).
A primeira banda a dar início às hostilidades foram os Bactrack, provenientes de Nova Iorque, transpirando energia e juventude. Estes rapazes deram um bom concerto e eu própria não conhecendo bem o colectivo de Long Island, dei por mim a pensar "se estou a gostar tanto disto agora, imagino se os conhecesse bem". Infelizmente, não houve muita gente a aderir, talvez por não conhecerem bem, talvez porque os rapazes já estariam um tanto quanto gastos da tour. Ainda assim, foi um bom concerto.
De seguida, vieram os Lion Heart da Califórnia, mas não presenciei a sua performance por completo, pois estive por instantes lá fora na conversa com uns amigos, dado que esta não era uma banda que eu fazia inteiramente questão de ver. Das poucas músicas a que assisti, pude assistir ao poder da banda. Pareceu-me ser uma boa prestação no geral que já conseguia trazer um pouco mais de caos, até o chão já estava na fase de ringue de patinagem artística proporcionando um rol de quedas, mas nada comparado com o que estava para vir.
No fim de Lion Heart aproveitei a pausa para ir comer algo muito rapidamente e por isso mesmo não consegui ver First Blood desde o início. Mas, do pouco que vi,apreciei bastante. O poder e a raiva que a banda emanava, deixava os maiores fãs da mesma completamente loucos, e o público cada vez mais expectante começava a fazer parte da festa em vez de serem meros espectadores. Por momentos, pensei que o mundo ia desabar quando foi proferido o verso "Next Time I See you, You're Fucking Dead". Foi sem dúvida uma prestação pesada.
"And last but not least" foi a vez dos Terror. Sem grandes cerimónias deram início a um espectáculo fenomenal. Trouxeram de Los Angeles no bolso várias canções do novo álbum "Keepers of the Faith", como "Stick Tight", "Your Enemies Are Mine" e "Returned to Strenght". Também passaram por músicas mais antigas como "One With the Underdogs", "Always the Hardway", e até mesmo músicas da sua demo. O frontman Scott Vogel estava imparável, sempre a comunicar com o público, pedia stagedives atrás de stagedives, circle pits atrás de circle pits e o público acedia. Pessoas voaram, caíram, saltaram, pairaram, sangraram, deram cambalhotas, apoderaram-se do microfone e inclusive balançaram nos candeeiros. Foi o fim do mundo por completo. Vimos vários amigos de Terror cantar, num"pass da mic" nunca visto, onde até o baterista Nick Jett veio dar-nos a graça de ouvir a sua voz. Vieram, viram e venceram.
Esta noite foi certamente memorável, em que os Terror afirmam que são momentos assim que os fazem sempre voltar, quando estão fartos do que fazem. E apesar da sua idade, continuam sempre a fazê-lo bem e arrisco até dizer, continuam a fazê-lo cada vez melhor.
A minha previsão para este concerto foi "heads will roll" e cabeças certamente rolaram.

11/01/2011

No Good Reason - Far Away EP

Se estás a ler isto e tens o disco em casa, aproveita. Pega nele, coloca-o no teu gira-discos e começa pelo lado b. 33rpm, não há que enganar. “Far Away”, no lado b, começa com uma das melhores músicas dos últimos tempos do underground português. Chama-se “Tuesdays = Nowhere” e tem como participação especial Ricardo Martins dos extintos Day of the Dead. Verdade se diga, esta música vai fazer-te correr o risco de deixar a bolacha em mau estado. Aconselhava que fizesses um rip do teu disco para o computador. Mas convenhamos... “Far Away” não é só “Tuesdays = Nowhere”. “Far Away” é um pequeno pedaço do que de melhor se faz em Portugal no espectro do punk hardcore.

Os No Good Reason já não precisam de introduções. Já andam há tempo demasiado a fazer boa música para ainda alguém os vir definir como uma espécie de cruzamento entre Gorilla Biscuits e Lifetime. Não o farei de novo.

O melhor de No Good Reason, é que não precisamos de uma música como “Tuesdays = Nowhere”, uma música incidente sobre amizade e companheirismo, para nos remeter a esses sentimentos. No Good Reason é sinal de roadtrip, de boa onda, de bons sentimentos, daquilo que deve ser feito o hardcore. “Far Away” vai ainda mais longe. Ou mais para trás... Nunca os anos 90 estiveram tão bem caracterizados num disco saído já na década seguinte. “College” e “Far Away” lembram Millencolin. Claro que, em “Far Away”, seriam uma espécie de Millencolin em ácidos, que só mesmo alguém bem dentro de várias vertentes do underground “saca” um instrumental ao nível daquele após uma música de tendência Happy Hardcore. “College” chega mesmo a ser um pouco o retrato da juventude. O drama de trabalhar para chegar mais além, de trabalhar para ser o melhor e, no fim, esperar que esse trabalho dê frutos. Afinal, a vida não é certa. É dura. E não é por isso que todas as músicas, dentro deste tópico, têm de ser musculadas.

“Far Away” marca o regresso dos No Good Reason à edição de música, algo que já se vinha aguardando há algum tempo. Mais do que uma revolução sonora, é o aprimorar de um som único em Portugal. Verdade se diga, ninguém faz música como os No Good Reason em Portugal. Para o bem e para o mal. E, é por isto, que No Good Reason é tão especial.

www.myspace.com/nogoodreasonhc

06/12/2010

Blame it on the Ocean - Ruins

La Bella Italia talvez não seja o recanto europeu mais propício ao hardcore. Talvez, quem sabe, por não vir servido com massa. Mas uma coisa é certa, das poucas bandas que chegam até nós de Itália, há um certo selo de garantia de qualidade. Um pouco na onda do “poucos, mas bons”. Sabemos que Strenght Approach é bom, que The Kill é bom e que Gold Kids é excelente. Se quisermos considerar como italiana, sabemos ou esperamos, que Runes irá ser igualmente excelente. Aqui surge outro “Ruins”. O recente EP dos italianos Blame it on the Ocean.

Os Blame it on the Ocean são um quarteto italiano que toca hardcore na onda de American Nightmare, Lewd Acts e, mais especialmente, Cursed. A banda demorou um pouco a encontrar a solidez e a coesão enquanto banda, desde que em 2008 se formaram. Alcançada, soltaram a sua demo em 2009 e, finalmente, em 2010 chega-nos “Ruins”: O ep de estreia da banda.

Aprazem-me, especialmente, registos pouco convencionais em termos líricos. Isto é, não gosto particularmente de músicas cujas letras seguem uma tendência – ainda que natural – de estrofe-bridge-refrão-estrofe-refrão, mas sim como que um pequeno texto, contínuo, ao longo da música. Os Killing the Dream fazem isto muito bem, os The Carrier fazem-no muito bem, os American Nightmare fizeram-no eximinarmente. E estes Blame it on the Ocean seguem igualmente esta linha: construção lírica com base numa ideia, um texto. Simples e eficaz. Em termos de conteúdo, a coisa não falha mas também não inova. Temos os temas usuais: cena hardcore, religião e duas músicas de mensagem esperançosa embebidas em soturnismo músical, complementadas por dois trechos instrumentais. Não faltam, ainda assim, algumas estrofes mais memoráveis. Tenho de destacar: “And thousand miles away\Can't break this bond\I am the perfect shoulder\You can cry upon” (Runaway). Musicalmente, é o que já referimos: soturnismo e Cursed como palavras-chave.

Os Blame it on the Ocean surgem como uma das surpresas do hardcore europeu do presente ano. “Ruins” é bastante sólido, é musicalmente irrepreensível, é líricamente interessante. Os italianos começam a perfilar-se como um dos países em destaque do hardcore mais moderno, mais melódico talvez, a par dos incontornáveis ingleses e alemães. Fica a promessa da banda de estarem a trabalhar em novo material “heavier, and sicker”. Nós estaremos cá para ouvir.



Keep Walking - Pirate's Heart


É preciso, por vezes, um “Pirate’s Heart” para que se aguentem muitos dos contratempos e adversidades que a vida nos traz. Estejamos a falar de questões pessoais, estejamos a falar de questões profissionais. Musicalmente, será isso que os Keep Walking pensarão.

“Pirate’s Heart” estava gravado, na gaveta portanto, desde Janeiro de 2009. Ou melhor, o álbum tivera as suas sessões de gravação já nos idos meses de Dezembro 2008 \ Janeiro 2009 e voou até Nova Iorque, até Alan Douches, a fim de ser masterizado no West West Side Studios. Reza a lenda que terá sido intenção ser lançado nos meses que se seguiam mas, como podemos desde logo antever, contratempos se intrometeram e somente agora, juntamente com o terminus da banda, “Pirate’s Heart” chega até nós.

“Pirate’s Heart” é, então, uma boa mostra do que de melhor se faz por Portugal em termos mais melódicos. Dentro do hardcore, claro. Músicas que remetem para Modern Life is War, para Dead Hearts, para Comeback Kid... Liricamente interessante e, relativamente complexo – isto é, sem uma composição clássica de texto musical – “Pirate’s Heart” segue um pouco o conceito perceptível pelo título: vivências. Pessoais e colectivas. Desilusões, política, arrependimentos, confiança, esperança. É por aqui que “Pirate’s Heart” navega. O álbum conta ainda com a participação de Poli (Devil in Me) e de Mike Ghost (Man Eater) nas músicas “Fireball In a Single Second” e “Pirate’s Heart” respectivamente, sendo que, esta última, marca mesmo o ponto alto do álbum, metaforizando a vida com histórias de pirata. Musicalmente, a faixa mais interessante do álbum, que culmina com sons de gaivotas e mar. Afinal, estamos no Algarve.

“Pirate’s Heart” chega então até nós, finalmente, sem chegar a ver a luz do dia de forma conveniente e como merecia – isto é, sem uma edição física e sem um conjunto de release shows -, mas chega. Gravado no Blacksheep Studios por Makoto Yagiu (If Lucy Fell) “Pirate’s Heart” marca o fim de mais uma banda em Portugal.

Da nossa parte resta-nos desejar a maior sorte futura aos membros.

Keep Walking Myspace