21/09/2012

Grankapo + A Thousand Words + Another Day Will Come @ Roterdão Bar




Em noite de estreias e apresentações, aconteceu de tudo um pouco no Roterdão Bar em Lisboa. O bar, na agora encerrada ao trânsito, Rua Nova do Carvalho (medida que, por certo, agradará a clientes e empresários. Todos se recordarão o quão inacessível se tornava a rua, quando dezenas de pessoas se aglomeravam à porta do MusicBox em noite de concertos, com automóveis a passar ao mesmo tempo), recebeu pela primeira vez um concerto de hardcore. A apadrinhar esta estreia, uma casa cheia, os Another Day Will Come, os A Thousand Words e os Grankapo.

Com um metalcore inundado de breakdowns e paisagens desérticas – ou a banda não se considerasse, ela própria, pure southside metalcore withroots of tiresos Another Day Will Come trouxeram algum sumo novo a uma noite que não deixou de ser do hardcore. O estigma de banda de abertura (que, normalmente, significa tocar para estátuas e paredes) não se fez notar, uma vez que a banda, “trouxera da margem sul do Tejo”, a sua própria falange de apoio, que não pejou em fazer sentir a sua presença desde o primeiro riff (ou devemos antes dizer breakdown) da banda de Paio Pires.

A apresentar o seu EP, agora editado em vinil pela Ruins Records, estavam os A Thousand Words, de regresso a Lisboa e na primeira de três datas (Porto e Caldas) de apresentação do novo lançamento. Com uma entrada com pé esquerdo, os A Thousand Words entraram em falso com Crosses, a “balada” de Sinners, com problemas ao nível da voz que não possibilitaram que a mesma fosse audível ao longo da música, algo que levou ao quase desespero do vocalista da banda.  Com um set sempre centralizado neste EP, os AThousand Words trouxeram, ainda, as já usuais “Intro” (dos tempos da demo) e “AbsenteeDebate” dos Unbroken, a Lisboa.

A fechar o cartaz, os Grankapo vão continuando a apresentar o seu novo trabalho “The Truth”, editado pela HellXis e oferecido à entrada. Um dos herdeiros da cena SPOC hardcore, os Grankapo vão-se mantendo, ao longo dos anos, fiéis a si próprios, mantendo sempre o feeling old school de bandas como Omited Grass Reaction ou More than Hate, muito típico da zona de Loures. Assim, não foi de estranhar que a banda, não só tenha apresentado temas novos, como não esqueceu alguns dos temas mais emblemáticos, de uma banda que leva já mais de 5 anos de carreira (nos tempos que correm, é uma eternidade), mas que vai conseguindo sempre obter uma excelente reacção do público que ruma aos seus concertos.  Mesmo que, esse público, pareça ser cada vez mais jovem.

Lisboa vai-se mostrando rejuvenescida de público, com a afluência de muitos (e novos) rapazes e raparigas, algo capaz de deslocar o mais old school dos hardcore kids. Numa noite em que nem tudo correu bem (o som da sala nunca conseguiu estar à altura, algum calor e uma completa falta de noção e sensibilidade de um elemento da segurança da sala), é de realçar a lotação (praticamente esgotada) da sala a uma quinta-feira à noite, e numa altura em que as aulas já recomeçaram. Não só o Cais do Sodré se renovou neste último ano. O hardcore de Lisboa também.


03/05/2012

Rise and Fall @ Cacilhas



Falar do hardcore belga, é confundir religiosidade com música. É ilustrar fonética e sonoramente a ascenção do capeta à terra; a subida de Dante e Virgílio ao Monte do Purgatório. É acompanhar, dar uma banda sonora, a obras de Rembrandt ou Eustache Le Sueur. É, imaginar, Gustav Doré e Stradamus na voz e guitarra de uma qualquer banda assinada pela Goodlife Records, nos tempos áureos da H8000. E, os Rise and Fall são, em 2012, tudo isto. Os, talvez maiores, herdeiros do legado deixado por bandas como os Liar, os Congress ou os Arkangel. Estiveram de regresso a Portugal, acompanhados pelos A Thousand Words e pelos For the Glory em três datas.

Os A Thousand Words vão vivendo o seu melhor momento após a reformulação da banda. Com “Sinners”, o seu novo EP, acabado de sair – registo que, acreditamos, se tornará referência incontornável do hardcore mais moderno nacional -, coube à banda que se vai desdobrando entre Pombal e o Algarve, dar início a toda esta ascenção demoníaca. Foi, precisamente, com base em “Sinners”, que os A Thousand Words compuseram um set que foi, ainda, complementado por intros vindas dos tempos em que a banda era, digamos, mais nova-iorquina. Os A Thousand Words são, em 2012, um dos nomes mais fortes do panorama hardcore nacional. “Sinners” prova-o. As actuações, isentas de falhas, coesas e, cada vez mais, fluidas em palco, também. “Absentee Debate” dos Unbroken precipitou o fim de um set em que os A Thousand Words terminam com a, também, música final de “Sinners”: “Crosses”.

Os We Are the Damned, banda convidada para a data “lisboeta” da mini tour dos Rise and Fall, encarava o palco de Cacilhas acompanhados por um alinhamento da bandas que, talvez, não lhes fosse o mais confortável. Nada mais errado. Como, aliás, alguém disse, este death ‘n roll, influenciado por bandas como os Celtic Frost ou os Venom, pode até nem ser o mais puro dos hardcores, mas a essência está lá. E, afinal, o underground é só um e imune a estilos, prateleiras e catalogações. Os We Are the Damned trouxeram - para além de Mike Ghost numa das guitarras - um alinhamento focado em Holy Beast, o seu mais recente álbum e que, ao longo de meia hora, tratou de dizimar as almas presentes no Revolver Bar, quais devoradores da morte.

A dar os últimos concertos em Portugal antes de embarcar no carrossel da europa e, depois, da vida, que é como quem diz, antes de ir de férias por um tempo indeterminado, os For the Glory trocaram as voltas ao mundo e foi a sobrevivência do mais forte logo de início. O bem composto Revolver Bar deu, finalmente, sinal de vida. Um concerto de For the Glory é sempre isto. Festa. Mesmo que a ocasião comece a ser de despedida. Mas, ainda antes de dizer adeus, sabemos que haverá um split, um 7’’, com os alemães World Eater – que ainda há pouco tempo visitaram o nosso país. “Life’s a Carrossel” foi o primeiro avanço que se pôde escutar desse registo. Num set que é sempre um desfilar de êxitos, os For the Glory não quiseram deixar de dedicar “All the Same” aos We are the Damned. Afinal, como também já escrevemos, estamos todos no mesmo barco. Bem como “Some Kids Have no Face” dedicada aos esforços, aparentemente inglórios, do movimento es.col.a. “Armor of Steel” encerrou o set da banda, numa actuação que foi, como sempre, à prova de bala.

Destinados a invocar demónios que nem sabíamos existir, os Rise and Fall trazem consigo uma aura que só bandas muito especiais a encerram. Tal como, só bandas muito especiais, iniciam um set curto, mas devastador, logo com “Deceiver” e “Forked Tongues”. A banda da Deathwish é, possivelmente, uma das bandas europeias mais importantes aos dias de hoje. Um banda que pisca o olho não só ao hardcore, mas que vai mais longe. Vai ao metal, vai ao crust. Oferece um som sujo, técnico, ao qual o som do Revolver Bar não soube estar à altura. Quer pelo embaraço do mesmo, numa núvem sonora pouco perceptível e definida, quer pelo desajuste do volume dos diferentes componentes musicais. Uma banda que, mesmo não puxando propriamente pelas danças tradicionais ou pelo sing a long, consegue embrenhar o público. O tempo parece passar demasiado depressa. Depressa até que somos abanados violentamente ao som de “Hidden Hands” e “Bottom Feeder”. Seguidas. Como se não houvesse piedade. Mas os belgas conseguem algo que todas as bandas querem. São melhores a cada disco que passa. “Breathe” – que o próprio vocalista apelida de música mais calma do disco – ou “Faith/Fate” com a qual encerram o set, mostram uns Rise and Fall mais arrastados. Mais técnicos. Mais músicos. Mais... perfeitos. A atitude, quase de possessão mas estranhamente calma, do vocalista, contrasta com os constantes movimentos de serra eléctrica dos guitarristas. Os Rise and Fall são intocáveis e, tanto em palco, como em disco, são intensos.  São imensos. Tudo o que sabemos, é que estes mestres do feedback, podem até falar de esperança perdida, de buscas pelo caminho na vida, mas uma coisa é certa: não queremos procurar mais, não precisamos, o caminho do que queremos ouvir ou ver. Isso sabemos. São os Rise and Fall.



21/03/2012

Bane + Cruel Hand + Rotting Out + Shape @ Cacilhas



Quando nos anos 60 e 70, uma significativa parte da população nacional compreendeu as necessidades de fazer uma vida melhor lá fora, muitos rumaram a Oeste. Saíssem do território continental, saíssem do território insular,  era grande, a probabilidade, do primeiro país que se encontrasse, horas e dias após o embarque, fossem os EUA. Massachussets tornava-se, assim, o segundo estado americano com maior número de emigrantes de origem lusa ou luso-descendentes. Perfaziam 4,4% da população total do estado em 1990. Mas, no sentido inverso, não haverão grandes registos de fluxo migratório. Mesmo que, orientado a este, Portugal seja, em princípio, o primeiro país a surgir. Talvez por isso, também os Bane, tenham demorado cerca de 17 anos, quase duas décadas após a sua formação, a descobrir Portugal. A visitar-nos. Mesmo que, bandas como os Mental, há muito lhes tivessem dito o quão prazerosa poderia ser essa visita. Mas o povo também diz que, o valor da tardia chegada, é sempre maior que o da nunca chegada. E Cacilhas, como bom “porto” que é, recebeu os Bane, finalmente em Portugal.   

Numa noite em que os Metallica pareciam omnipresentes, os Shape trataram de ir ao baú das diabruras buscar uma surpreendente Hit the Lights. Num ambiente ainda frio, distante e com menos público que aquele que seria de prever (sentimento comum a toda a noite), os Shape demoraram algum tempo até finalmente agarrar o público. Terá acontecido já pelo meio do seu set, com Life’s Hard. Não ficaram por revelar mais surpresas, apesar da expectativa em ouvir X-Acto. Mas os Shape não são uma banda de covers e, por isso, quando Vampires, WYLD ou Rotten Inside entram em palco não há espaço para muito mais. Nem para a vergonha ou frieza. E o público finalmente lá se solta. O resto, é o que já todos sabemos.

Em estreia absoluta na Europa, os Rotting Out são uma das mais excitantes bandas novas do hardcore americano. Afinal, “Street Prowl” havia sido recebido no ano transacto como um dos grandes. Naquela que poderá ter sido uma das mais interessades lutas pela beleza pessoal, cremos Walter Benjamin possa ter sido desqualificado por falta de dentes. Mas a vida é assim. Tanto tira, como dá. E Walter Benjamin poderá não ser um sex symbol capaz de fazer vídeos onde em cada take surge com o guarda roupa remodelado, mas compensa tocando baixo nos Alpha & Omega ou sendo a cara dos Minority Unit. E é de música, de conteúdo que gostamos. Os Rotting Out estreavam-se na europa e, talvez por isso, tenham querido abrir o concerto em grande. “Laugh Now, Die Later” foi como uma chapada de luva branca. E a sala rendeu-se aos californianos. De presença inesgotável em palco, a banda e, especialmente, o seu vocalista, viram-se a braços com os irritantes problemas técnicos, a nível de microfone, que parecem ter limitado bastante esta estreia em Portugal, ou não tivessem arruinado por completo, para seu desespero, “Dead to Me”. A banda revisitou não só o seu LP, como foi ainda buscar músicas a Vandalized (“Skin”) e à sua demo (“Kobe Bryant Lifestyle” e “Positive Views”).

Num daqueles volte-face surpreendentes, que por vezes ocorrem, os Cruel Hand formaram um culto muito próprio, que os tornou tanto ou mais relevantes que o seu suposto projecto principal: os Outbreak. Mas, não mais uma side project, os Cruel Hand lançaram alguns dos mais relevantes registos do hardcore mais recente, como o são Prying Eyes ou Without a Pulse. São, também, uma das figuras principais da, relativamente recente, trend do Metallica-core. Algo que, diria, exibem orgulhosamente em tshirts tie dye. De boas recordações nacionais, fruto de vários concertos tocados no ano passado com os ColdBlooded, os Cruel Hand pareciam surpresos com a recepção que iam recebendo ao longo do desfile de “hits” que iam providenciando. Das mais antigas “Under the Ice” ou “Crashing Down”, às mais recentes “Day or Darkness”, “Two Fold”, “Lock n Key” ou “One Cold Face”, num set onde não faltou a óbvia “Life in Shambles”. E quando uma banda termina um concerto sucedendo “Hounds”, “Dead Weight” e “Begin Descension” pouco mais resta dizer. Sólido, pesado e groovy. Assim são os Cruel Hand.

Um sentimento agridoce fica, quando uma das mais importantes bandas dos últimos 20 anos e, seguramente, uma das mais influentes, nos visita pela primeira vez e a sala não está cheia. Não está a abarrotar. Não é, apesar de tudo, algo que tire da memória num futuro longo, o concerto dos Bane. Mesmo que, para isso, a banda tenha de entrar de pé esquerdo com Speechless, que não esteve à altura da expectativa. Como não teve, a ausência de músicas como Ante Up ou The Young and the Restless, num algo incompreensível set de 10 músicas. Felizmente, também diz o povo que a qualidade se sobrepõe, frequentemente, à quantidade. E foi com a intensidade, e a sensibilidade, de músicas como As the World Turns, My Therapy, ou Swan Song – a acabar de forma memorável o concerto – que a banda nos convence. Que como que nos pede desculpa por só agora chegarem. E nós desculpamos. Cantando em uníssono Count me Out, Ali vs Frazier ou Superhero.  Invadindo o palco em Can We Start Again. E, afinal, poderíamos começar de novo?

11/03/2012

Burning Man - Ronin




“Ronin”. “Ronin” é solitário. Vagueia. Não tem destino, flutua. “Ronin” é sujo, é sludge que não perde o core. São riffs que dilaceram que nem daishö, e headbangs que te levam ao seppuku. “Ronin” marca a estreia dos Vianenses “Burning Man” e cuidado, não há código ou ética que o valha, não é, portanto, catalogável. Não se quer. Deves temer, contudo. Por ti, pelos vizinhos, por de onde sai o som que ouvirás. 

Há apenas uma verdade. Esta verdade. Não importam as associações possíveis a bandas como os Mastodon ou Men Eater. Com letras que remetem a Converge ou Rise and Fall ou que soe Deathwish-ish. “Ronin” tem a sua própria vida, o seu próprio código. “Dead Rabbits” define: “heavy drinkers, loyal brothers, unique murderers”. Os “The Rat” deste mundo que se acautelem, que temam. Pelo riff, em loop. Pela sujidade de uma voz sempre arrastada, numa onda que leva tudo em diante. Que queima. Todas as mentiras e memórias. Sem contemplações. “I´ll pull the trigger with no regrets, you will fall and i will stand”. “Our Thing” surge dilacerante, num festival de riffs. São headbangs que partem a espinha. E a voz, essa, surge desértica, envolta em pó. Em tom e colocação diferente, desenjoa. Varre tudo. Mas os “Burning Man” são “Wise Guy(s)”. Agarram o seu destino pela garganta, partem-lhe as mãos. Chegam ao topo da montanha. “Ronin” é isto. É chegar ao topo da montanha. Arrastar tudo o que se conhecia para o abismo. Não há lugares cativos. “Ronin” é sacrifício; é preserverança; é lealdade. Quem diz que Viana morreu? Chegaram os novos daimyö. “Triad” são dez mil sabres. São cinco trovões que se abatem sobre ti. São a sentença de uma nova alma. “Ronin” marca a posição dos Burning Man no panorama underground nacional; Traz nova vida a Viana. Esta é a lenda de um grupo que vinga a reputação de Viana de Castelo. 

Gravado nos Blacksheep Studios, “Ronin” tem data de edição já em Abril próximo e marca a estreia dos Burning Man. “Dead Rabbits” e “The Rat” estão já disponíveis para audição no facebook da banda e a edição de “Ronin” terá cds e cassetes a cergo da Shut Up and Play.



21/12/2011

Alto do Pina - 18/12/2011




Lisboa tem de ter algum tipo de recorde para as salas mais bizarras utilizadas na organização de pequenos concertos underground. Não se consegue explicar o que é ver um concerto de punk, ou hardcore, numa sala como a Casa de Lafões. Aliás, contado, é mesmo impossível descrever o que é a Casa de Lafões. Mas eis que a bizarria da sala da Madalena ganha um concorrente de peso, mais habituado a outro tipo de bailaricos, mas igualmente cada vez mais habituado a trocar a marcha popular pelo two step. De novo, ninguém se acreditaria perante uma descrição cénica e de ambiente da sala do Ginásio do Alto do Pina. Não vou sequer tentar, deixo somente o repto para que, numa outra ocasião, a lá se desloquem. Nem que seja para, durante um qualquer concerto, levar com um pouco de estuque caído dos céus.

A tarde marcava o fim da mini tour encabeçada pelos LIFEDECEIVER e pelos Don’t Disturb My Circles, mas é um daqueles cartazes que, mais nacional, era impossível. Os LIFEDECEIVER vinham de Coimbra. Os Step Back! retornavam à capital vindos de Penafiel. Os A Thousand Words vinham do Algarve e, a receber todos este misto de sotaques, os lisboetas Pussy Hole Treatment e Don’t Disturb My Circles.

Os Pussy Hole Treatment terão ficado bastante agradados pelos problemas de logística iniciais que levaram a um atraso no início dos concertos. À hora marcada, teriam tocado para si e bandas restantes. Assim, a banda conseguiu desde logo reunir na sala cerca de 40 pessoas (que poderá soar pouco, mas tendo em conta a dimensão da sala e arrumação da mesma, significa a sala praticamente composta), desde o início. A banda, de cara lavada – isto é, novos membros, nada em relação aos hábitos higiénicos dos mesmos -, vai demonstrando o seu amadurecimento sonoro que, pontualmente, se vai desviando daquilo que conhecíamos da banda. Uma intro bastante melódica, por exemplo, é sintomático disso mesmo. Uma cover, bastante personalizada, diga-se, de Have Heart (“Lionheart”), idém. A banda compôs o seu set com incidência nas músicas do split lançado com Never Fail e no seu EP “Destroy Everything Now”, tendo ainda apresentado músicas novas, a lançar brevemente.

Sem dúvida a banda mais deslocada do cartaz - num género pouco habituado a este tipo de desvios musicais -, os Don’t Disturb My Circles tiveram de lutar contra isso mesmo e contra, ainda, problemas técnicos iniciais no seu set. A banda foi distribuindo hardcore caótico na onda de uns Everytime I Die, The Number Twelve Looks Like You ou, mesmo, Dillinger Escape Plan ou Converge. Riffs, como se disse, bastante caóticos, momentos bastante diferentes dentro da própria música, que simulam músicas dentro de músicas, numa espécie de musinception. Uma grande presença em palco (ou mesmo na ausência dele, face ao concerto se ter realizado no chão), bem em consonância com a música que ia sendo, permita-se-me, despejada. Uma banda que merece uma maior abertura de espírito do público, quando, como em cartazes como este, se encontra mais desviada. Mas, acima de tudo, uma banda que merece ganhar o seu próprio público, de um estilo ainda pouco desenvolvido por cá.

Mais tradicional será o som dos A Thousand Words, principalmente quando a banda ainda vai tocando as músicas presentes na sua demo e, por isso, mais antigas. A Intro da banda continua a fazer estragos e a ser a música mais concorrida em termos de adesão. Algo que, se acredita, poderá estar para mudar, bastante somente para isso a banda lançar finalmente algo novo. E este, nota-se, é o principal handicapda banda: falta de entrosamento e empatia com o público, motivado pelo desconhecimento do mesmo em relação aquilo que é tocado pela banda, que resulta na pouca adesão e participação do mesmo. É que, musicalmente, nada falha na banda. Nem mesmo com um membro de recurso a substituir um dos elementos full time da banda. É uma banda que tem uma presença como poucas. É uma banda que tem uma sensibilidade e uma técnica musical como poucas. É, sem dúvida, uma das principais bandas do hardcore nacional. A banda continua, então, a demonstrar o poder que as músicas novas têm e que só podem deixar excitado qualquer pessoa que goste de hardcore, precisando ainda assim, de ter um set mais fluido e sem tantos cortes. “Bottom Feeder” dos Rise & Fall terá, ainda, feito as delícias daqueles que gostam de ouvir covers de bandas famosas nos concertos.

Um dos casos mais enigmáticos do hardcore nacional, será sempre o dos LIFEDECEIVER. Poucas bandas são tão profissionais e apresentam um produto tão cuidado e tão pensado quanto esta. Não há como ficar indiferente, quando entramos na sala e temos uma tela de fundo gigante com a imagem da banda. Não há como ficar indiferente a uma banda que, na sua banca de merch, tem de tudo, de qualidade, e apelativo visualmente. Não há como ficar indiferente a lançamentos bastante trabalhados ao nível da imagem, que transmitem uma ideia de brio e profissionalismo que, muitas vezes, falha em demasiadas bandas (seja por decisão própria, ou manifesta falta de vontade ou visão). E, se tudo isto não bastasse, a banda musicalmente não tem, nem nunca teve, qualquer tipo de comparação a nível nacional e, é mesmo muito dificil encontrá-la a nível mundial. E talvez a estranheza daí possa advir. Mas é uma banda que, por tudo isto, vai demonstrando que terão de ser considerados uma das grandes bandas nacionais, mas, igualmente, uma das mais subvalorizadas. Os LIFEDECEIVER apresentavam, neste fim de semana, músicas dos novos releases que a banda tem preparados. O split com Utopium está já disponível e o split com Don’t Disturb My Circles para lá caminha. Músicas que, ainda assim, podem ser ouvidas na tape (também acabada de lançar), que contempla as músicas dos splits. Tudo isto compôs o set da banda, numa presença em palco irrepreensível que não deixa espaço a qualquer tipo de observação. Num set que, até uma falha de luz, parece fazer parte do próprio espéctaculo, face a toda a imagética e conceito da banda.

E todo o pó da sala foi tirado com o concerto dos Step Back!, tecto incluído. Se a banda já se havia mostrado em forma dias antes no Montijo, no Alto do Pina a banda esteve simplesmente dopada. Um concerto de banda grande que pouco terá ficado a dever aos mais que aclamados For the Glory, Devil in Me ou Reality Slap. E tudo acaba por ser ainda mais bonito quando, para além de uma banda em claro estado de graça (riffs e mais riffs, voz super versátil e groovy que faria corar de inveja vocalistas de bandas de nova iorque), e um som da sala sempre perfeito (mesmo tendo em conta as aparentes dificuldades de acústica da mesma), o público se rende desde o primeiro acorde – eu diria até que ainda nem tinha começado o acorde e já havia sides to sides, desde o “palco” até ao merch. -, à mesma. A banda foi desfilando algumas das músicas que já lançara, interpelou-as com música nova e deitou a sala abaixo com uma irónica “World Peace” dos Cro-Mags. A verdade, viu-se, é que a paz mundial não pode mesmo ser feita. Não num concerto de Step Back!.

13/12/2011

Montijo Hardcore - 27/11/2011


De regresso ao Montijo e, em estreia absoluta nestas lides, o hardcore visitou a Timilia das Meias, o novo centro cultural desta pequena cidade, mais habituada a outro tipo de... touradas. Ponto final da tour europeia para os algarvios Critical Point, a tarde contou ainda com a presença dos Hard to Deal, dos Shape e dos Step Back! - também eles de regresso aos concertos na zona de Lisboa.

Infelizmente, não foi uma muito concorrida Timilia das Meias, uma nova venue que aparenta apresentar condições de topo para receber este tipo de concertos, que recebeu de volta o hardcore no Montijo. Uma sala com um som perfeito e, diria até, o tamanho certo para este tipo de concertos. Faltou principalmente público local, - algo que é capaz de desmotivar o mais apaixonado dos promotores, totalmente imerecido por todo o dinamismo que os mesmos ao longo dos anos vêm imprimindo à cidade -, para acompanhar as cerca de meia centena de pessoas que assistiram a mais uma matiné hardcore.

Os Hard to Deal vão, a pouco e pouco, ganhando a consistência ao vivo que os tornará uma ainda melhor banda. Ficando, por isso, sempre a ideia, a cada concerto, de que se vira o até então, melhor concerto deles. A banda apresentou os temas do seu EP de estreia (“Never Ending Story”), bem como uma música nova – aparentemente intitulada “Carry On”, mas ainda não oficialmente -, que demonstra, só por si, o talento da banda e para a qual ficam reservadas grandes expectativas para a sua audição a um nível mais profissional. Sofrendo do estigma de banda recente, os Hard to Deal ainda não conseguem ter a adesão – merecida – do público, onde o mais perto disso terá acontecido durante a cover “I Saved Latin” dos American Nightmare.

Os Shape voltaram a incendiar uma sala por onde passam e, isto, tem bastante a ver com a fiel crew de apoio que sempre acompanha a banda. Num set claramente mais curto que o habitual na banda, não faltou ainda assim, a emoção que sempre os caracteriza, principalmente em músicas como Vampires ou Rotten Inside. A banda voltou a incluir a música “1992” dos lendários X-Acto no seu set, um momento que resulta sempre numa grande adesão do público.

Com o seu regresso a Portugal, os Critical Point deram por terminada a tour europeia que haviam iniciado a 4 de Novembro. Os algarvios são de uma espécie que parece já extinta em Portugal. Youth Crew clássico, sem merdas, de orientação posi e muito vegan straight edge pride. A verdade é, já não se fazem bandas assim. Uma banda que vive bastante do spoken word, com palavras sempre bastante conscientes. Os Critical Point apresentaram um set pautado por músicas da sua demo, do seu EP “Trial & Error” e ainda uma cover de Mainstrike e Judge que, “se algum straight não conhecer, se deve envergonhar”. A banda parece ir recebendo o mais que merecido reconhecimento do público – que ajudou acanhadamente o vocalista Rafael Madeira. Esta é uma banda cujos membros já muito deram ao hardcore português e uma das razões pelo qual o mesmo subsiste e acontece frequentemente em várias zonas do país. Algo que, não fora a qualidade da banda, deveria ser garante, por si só, de grande respeito e reconhecimento.

De regresso à zona de Lisboa, estavam os Step Back! Que ficaram encarregues de encerrar a tarde de concertos no Montijo. Limitado fisicamente, o vocalista da banda foi pedindo a adesão do público, desde que não se lhe tocasse em zonas sensíveis. Pelo menos, de forma agressiva, não sabendo qual a reacção que adviria de um toque mais carinhoso. Mas ninguém queria que houvessem “stitches out” que não somente musicais e, quanto a isso, tarefa cumprida. Numa palavra, o concerto dos Step Back! É groove. Uma voz super versátil e, como disse, groovy as fuck, colorida por riffs e mais riffs, aos quais parece, ainda assim, carecer de um outro acompanhamento a nível de guitarra. A banda foi apresentando um set bastante concorrido, de especial incidência sobre músicas mais recentes, ao qual não faltou uma fidelíssima cover de Cro-Mags (“World Peace”). Espera-se agora que os mercados financeiros melhorem para que a banda tenha viabilidade económica para se lançar na gravação de novos temas e um novo registo, quiçá, um longa duração.

Concertos como estes do Montijo são o exemplo da preserverança, do amor pelo hardcore e pela cena local, do empreendedorismo e do dinamismo que pessoas como o Filipe e o Fábio. E são também exemplos da importância que o “support your local scene” tem em pequenas cenas underground como Portugal. O repto que aqui deixamos, é o de apoiarem os Filipes e os Fábios da vossa terra. O hardcore não existe só nos grandes centros e nas bandas estrangeiras. O 4theKids só pode agradecer que concertos deste género vão continuando a acontecer pelo país, mesmo que não tenhamos a possibilidade de os frequentar.

26/09/2011

For The Glory, Grankapo, ColdBlooded, For Ophelia's Death e Hard to Deal, Cacilhas


Foi um praticamente cheio Revolver Bar, em Cacilhas, que recebeu de volta os For the Glory, na sua última data da recente tour europeia. A tarde era também marcada pelo apoio a instituições de beneficiência a pessoas carenciadas, através da angariação de produtos alimentícios para as mesmas. Mais um exemplo por aquilo que se deve pautar o hardcore: mais que um estilo de música, ter uma vertente e consciência social bem activa. A apadrinhar o regresso dos For the Glory, estavam ainda os Hard to Deal, os For Ophelia’s Death, os Cold Blooded e os Grankapo.

O concerto dos Hard to Deal vem no seguimento de um Setembro bastante movimentado, com vários concertos, um EP lançado e, ainda, uma distinção honrosa – valha o que isso valha – como banda da semana para o 4THEKIDS. E, foi esta experiência adquirida durante este mês, que mostrou uns Hard to Deal cada vez mais consistentes que em datas anteriores. Não só a nível sonoro, mas igualmente a nível de presença de palco. O set dos Hard to Deal foi, como se poderá calcular, incidente no seu recente trabalho “Never Ending Story” e foi ainda adornado com duas covers, de Life Long Tragedy e One Life Crew.

Para os For Ophelia’s Death não se afigurava tarefa fácil. Não só iriam tocar num alinhamento de bandas que fugia um pouco ao seu som, estando, por isso, algo desenquadrados do restante cartaz, como ainda se viam impossibilitados de tocar com baixista, por razões pessoais do mesmo. Um esforço que será de louvar, mas que não estamos certos de ter sido frutífero para a banda. A apresentar o seu recente EP, o For Ophelia’s Death não terão conseguido converter ou, sequer, convencer alguns dos presentes da sala. A falta do baixista foi claramente um handicap ao longo do concerto ficando, por isso, a necessidade de ver a banda em condições mais favoráveis.

Numa tarde de ausência de membros de bandas, também os Cold Blooded não puderam contar com o seu recente novo membro, o guitarrista João Fonseca tendo, por isso, voltado à sua formação mais clássica de quatro elementos e, somente, uma guitarra. Mas, neste caso, o som da banda não se ressentiu sobremaneira, até porque fora nessas condições que a banda quase sempre actuara. E os Cold Blooded estão, cada vez mais, e concerto a concerto, a tornar-se numa das grandes bandas nacionais. Algumas músicas como “Watch Your Mouth” são já bastante bem recebidas pelo público que não se coibe de chegar à frente, cantar e dançar durante todo o set. Set em versão fast forward, afinal eram cinco bandas numa tarde, mesclado entre as músicas da demo e do EP e ainda com a apresentação de uma nova música.

Com um novo álbum acabado de sair do forno, os Grankapo são, ao dia de hoje, uma das maiores bandas de sempre no panorama hardcore nacional. São mesmo já um dos clássicos e nome incontornável na história da cena hardcore portuguesa. E os concertos da banda demonstram isso mesmo: incriticáveis em palco e uma grande empatia entre o público e a banda. Não será, por isso, de estranhar, que a banda tenha dedicado grande parte do seu set a apresentar algumas músicas novas que figuram no novíssimo “The Truth”. Músicas que demonstram o clássico som da banda, baseado num hardcore mais clássico e tradicional, com bastantes partes rápidas a apelar ao circle pit e mosh parts capazes de agradar aos melhores dançarinos.

Mas a tarde – agora já noite - era, indiscutivelmente dos For the Glory. E, muito por eles, o Revolver voltou a mostrar a saúde em termos de audiência que a cena hardcore da zona de Lisboa tem, aos dias de hoje. Pouco falha num concerto de For the Glory. Sejam músicas antigas, como “Fall in Disgrace”, dedicada aos fãs mais old school da banda – afinal, é a música mais antiga que tocam actualmente, 8 anos depois de terem dado o primeiro concerto -, ou “Drown in Blood” ou “Won’t Crawl on my Knees”, sejam músicas do recente “Some Kids Have No Face”, a sala recebe-las com a mesma felicidade. A felicidade de estarem perante uma das melhores bandas europeias, a felicidade de estarem presente uma das suas bandas preferidas e, orgulhosos, da mesma ser portuguesa. E é deste orgulho que se faz um concerto de hardcore. Orgulho de conhecer a banda, de saber as letras, de querer chegar mais perto do microfone para cantar as letras com que mais nos identificamos. Um orgulho que é, igualmente, recíproco, numa transmissão de energias positivas entre banda e público. Um público que, segundo a banda, é um dos melhores da Europa, quanto mais que não seja pelo facto de, também em uníssono, cantarem “Things We Say” dos lendários Gorilla Biscuits. E isso, meus amigos, é um grande “estudasses, Europa”.

De Cacilhas têm soprado muito bons ventos recentemente. A sala, várias vezes, bastante bem composta e tem sido palco de variados concertos de beneficiência por causas várias. Algo que sempre distinguiu o hardcore de outros estilos musicais, é esta consciência social. Este activismo. Algo que nunca deve ser deixado morrer e, aliás, deve ser incentivado e tornado regra. Há algo mais de música no hardcore e todos devemos ter parte activa no mesmo, não só indo a concertos mas, igualmente, escrevendo, criando zines, etc. O hardcore vai vivendo, e quer-se ainda mais saudável.